terça-feira, 27 de novembro de 2007

Muito obrigado pela compreensão.


- Deixa eu experimentar a lupa aê truta? ... ei qual é tratante vai tirar a favela, descola essa porra aê senão eu te quebro no meio.Ficou muito estiloso o negão de óculos escuros, parecia algum ator de filme americano, seu rosto expressivo dispensa fala ou legenda, sua pele brilhava reluzente no sol das três da tarde.Junto a ele estava sua namorada, negra também só que em tom mais claro, mais alta que o negro atravessava a rua sem pressa em busca das moedas, arrastando as chinelas havaianas que teimavam em soltar as tiras, seus dedos estavam de fora na cabiam naquele espaço, tal qual, seu calcanhar.Eu estava na terceira cerveja quando os vi sentarem na mesa posta embaixo da árvore ali na calçada, acompanhados de mais um guardador, eles pediram três pratadas de feijoada, comeram como se fosse a última refeição do dia e a primeira também. Interrompiam a refeição à cada carro que saia, reservando a cobrança do encargo.Na vez do Negro um homem arrancou sem pagar nada, ele voltou para a mesa esbravejando com os braços, entre xingamentos e a promessa de que se mais um playboy filho da puta arrancasse com o carro seria atingido com uma pedrada no vidro. Mudei de lugar para obter uma melhor visão, fiquei torcendo para que alguém saísse com o carro sem pagar nada e, isso aconteceu três minutos depois.O negro assim como era esperado atirou a pedra no vidro do carro, em cinco minutos o camburão já havia chego, em quatro a base dos guardadores já estava desfeita, saíram como flecha arrastando as caixas-cama-espreguiçadeiras de papelão ao som de palmas que vinham das minhas mãos. O negro se virou e veio em minha direção, olhou bem na minha cara de felicidade e com os olhos mais puros que já vi, repetiu com firmeza a frase que ecoou como um palavrão: “Muito obrigado pela compreensão”.


Marco Cardoso

Um comentário:

Isa Cardoso disse...

Realidade das ruas, do dia-a-dia na visão de quem sabe também se colocar no lugar do outro. Tocante e tão simples.